que não camufle os meus defeitos,
que não despreze as minhas lágrimas!
Um amigo...
cuja presença traga alegria,
cujo silêncio transmita paz,
cuja escuta inspire confiança,
cuja lembrança infunda coragem.
Um amigo...
ao qual eu possa dizer: desculpa!
Uma, duas, três vezes...
Um amigo...
que não seja nem mestre, nem discípulo, mas
um companheiro com o qual eu possa caminhar
rumo ao infinito...
em qualquer momento.
Um amigo...
que conserve a sua intimidade sem esconder o
seu pranto.
Um amigo...
que ao amanhecer não me diga "bom dia", mas
me abra o seu coração com um amável sorriso!
Um amigo...
que creia na amizade e a viva como uma audaz
conquista de liberdade.
Um amigo...
cuja amizade seja óleo doce, suave e
perfumado, extraído do fruto amargo
de uma árvore espinhosa.
Um amigo...
que não se preocupe em dar ou receber,
mas que seja capaz de compartilhar.
Um amigo...
simples, sincero, natural...
capaz de chorar, mas sobretudo de sorrir.
Um amigo...
que seja um reflexo da bondade de Deus.
Destruir tudo é como perder algo, perco essa parte, essa fase da minha vida, mas muitas vidas já eu vivi e muitas mais hei-de viver ainda.









É fácil ser «simpática», difícil é perseverar, assumir o artifício da facilidade. Conservar os amigos. «Não és capaz de dar nada», disseram-me. Oh, sou mesmo capaz de dar tudo. Do que não sou capaz é de me enfiar na técnica da «generosidade» — normalmente, aliás, avara. Dar tudo — mas de uma só vez ou de cada vez, e não fazer da generosidade governada um meio simpático e coercivo de atrair uma corte. Nos intervalos, regresso. Agora, mais do que nunca, se exige a técnica da sociabilidade. Sou irremediavelmente de um tempo passado. Ninguém dos que convivem comigo me acusam de. O que me é difícil é ser sociável por automatismo. Os sociáveis são-no com toda a gente e ninguém. Criaram esse modo de ser por fora. Como o pentearem-se e lavar os dentes. E governam-no como lhes interessa. De qualquer modo o que me aflige é a facilidade do impulso, o primarismo dos máximos (para cima e para baixo), a incapacidade de controlo, de frieza exterior, a fácil emotividade, o «entrar em pânico» (Meu pai), a falta — que diabo, digamos tudo — de coragem. Aguentar as contrariedades. Tenho o dom de as tornar mais calamitosas. Acabou-se: é difícil aprender a viver. Ou ter oportunidade de. Um sempre instável equilíbrio. O viver por metade. Bom. Lamúria, já assentámos que não."



